Arminio Fraga entra no setor imobiliário

    Foi com ar de suspense que a mídia foi convocada para um anúncio de Marcelo Odebrecht na tarde de ontem. Cerca de vinte minutos depois do horário previsto, Marcelo surge acompanhado de Arminio Fraga, expresidente do Banco Central. Posam, juntos, para várias fotos e logo anunciam: tornaram-se sócios. A Gávea Investimentos, de Fraga, comprou 14,5% da área imobiliária do grupo Odebrecht, que investe da baixíssima à alta renda.

      Conhecidos há muito tempo, começaram a conversar sobre a parceria em outubro. "Queríamos um sócio estratégico que pudesse agregar e nos dar acesso a investidores", disse Marcelo. Entusiasmado com o mercado imobiliário - e com os detalhes, ainda pouco familiares, do segmento de baixa renda - Fraga defende a parceria como a porta de entrada em um setor "ainda carente e com grande potencial de crescimento". A Gávea terá três de oito assentos no conselho de administração.

    O valor do negócio não foi revelado, mas a aquisição representa o maior investimento da companhia - que tem, hoje, sob sua gestão um patrimônio de R$ 10,2 bilhões – em negócios de longo prazo. O investimento faz parte do terceiro fundo de private equity da Gávea, de US$ 1,2 bilhão - que no auge da crise investiu em Cosan e Lojas Americanas e ainda tem mais dois ou três investimentos perto de serem fechados. Segundo Fraga, a empresa se prepara para a captação de um novo fundo ainda este ano. Há pelo menos dois fundos, voltados ao setor imobiliário, em fase final de captação: Prosperitas e da americana Tishman Speyer.

    A sociedade marca a entrada direta do fundo no setor. Mais do que isso: coloca a Gávea na rota dos empreendimentos populares e do programa Minha Casa, Minha Vida. Debaixo da Odebrecht Realizações Imobiliárias está a Bairro Novo - empresa que nasceu de uma parceria com a Gafisa, que saiu do negócio após a compra da Tenda - que representa cerca de 50% do negócio imobiliário. "Nossa vocação é ser um minoritário engajado", disse Fraga, que já teve participações em imobiliárias listadas.

    A abertura de capital, um segundo passo mais provável após uma associação como essas - até como porta de saída para o fundo - não está descartada. "A empresa não vê o IPO como um fim em si mesmo, mas como parte do crescimento", afirmou Marcelo.

    Os fundos nacionais e estrangeiros estão aumentando seus aportes no setor. Os dois caminhos mais comuns são, via bolsa, ou nos projetos, através das SPE´s (Sociedade de Propósito Específico), montadas para cada empreendimento. A participação direta no capital da empresa é um movimento recente. Outro fundo de private equity que participa diretamente da companhia é o americano Golden Tree, sócio da Yuni.

    Com receita de R$ 400 milhões em 2009, a Odebrecht Realizações representa apenas 1% do grupo. As metas de crescimento são ousadas. Para este ano, pretende aumentar os lançamentos em 260%, chegando a R$ 2,8 bilhões e alcançar R$ 2,5 bilhões em vendas, alta de 130% sobre 2009. Se alcançar esses números, a receita deve saltar para pouco mais de R$ 1 bilhão.

   No segmento popular, a Odebrecht foca atuação no público de zero a três salários mínimos, a base do Minha Casa, Minha Vida. Conta com a parceria do governo em várias esferas, além de processos industriais e construção rápida, para conseguir ser rentável nesse mercado. "Há desafios, como escala, domínio da cadeia produtiva, capacidade de execução e industrialização", reconhece Marcelo.